Doce Bruna,
Tuas
lágrimas completam aniversário hoje. Eu sei, minha querida, já fazem muitos
anos. Olho pro céu outonizado e lembro do nosso amor. Não são as nuvens em
forma de lembrança, tampouco são as cores e os pássaros que o decoram. É aquele
avião frio e melancólico que o parte ao meio. Forte, imponente, veloz... Mas
incapaz de dar marcha ré. E te deixei partir até onde fosse seguro pousar,
longe do meu alcance. Meu paraquedas não abriu, Bruna. Me espatifei na loucura
de te abandonar.
O relógio
grita cada vez mais alto. Fechar os olhos tornou-se insuportável quando nem
mesmo a chama da vela acesa no meio da madrugada me permite criar poesias
adormecidas. Eu sequei, dogmatizei o meu próprio título de criatura ordinária e
passei a ser servo do meu próprio falecimento romântico.
Tu fostes
cruel, Bruna. Fostes cruel com tua beleza, teu cândido olhar, tuas botas de
ferro que fui obrigado a calçar e hoje me impede de continuar a vida sem você.
As memórias quase perdidas me fascinam, me enlouquecem. Ainda lembro das vezes
que deitei no chão do meu quarto e pus a questionar porque tuas lágrimas não
saiam verdes, exatamente da cor dos teus olhos que se desmanchavam. Você me fez
vivo pra logo em seguida, matar-me com a forca que eu mesmo ajudei a amarrar.
Virei
estranheiro da minha própria descoberta. Do que adiantou-me o título de bravo,
forte, dono de si, se no final das contas, morri com o título de leão ou
realeza? Não bastou-me o luxo, as mordomias de amar escondido. Eu quis gritar o
teu nome para desconhecidos, quis rasgar o meu coração para que tu pudesses
viver em meus pesadelos reais.
As rosas
escondidas por entre os espaços do teu nome murcharam, e as lágrimas que
irrigaram todo o meu oceano secaram. Hoje sobrevivo na carcaça de um homem que
encobriu teus beijos com a barba mal feita, que maquiou os sentimentos com uma
estrela no peito. Hoje penso que nada valeu a pena, embora eu saiba que sou
mais feliz sem você.
Não me
entenda mal, minha adorável menina. Tu me fazes falta, mas a felicidade não tem
a ver com espaços vazios. Pode parecer loucura, mas que a loucura seja colocada
à mesa para ser dividida entre os apaixonados ou desapaixonados. Ambos possuem
o mesmo par de óculos desajustado e um buquê de rosas murchas nas mãos. Eu sou
feliz, e serei ainda mais feliz daqui alguns anos.
Felicidade
é mentira, falta de sentido. O concreto tornou-se um peso insuportável e optei
por ser feliz. Optei por trazer os abutres para se banquetearem com as migalhas
que deixei no caminho de volta para teus braços. Optei por esquecer, sem que o
esquecimento tenha optado por mim. Desisti de te amar, sem que o amor
desistisse de vencer.
É chegado
o dia do nosso adeus definitivo. Que um dia a gente se cruze pelos caminhos
tortos e curtos da eternidade, meu amor. Que um dia tu desabroche e solte teu
perfume de rosa até mim, para que eu não tenha que pedir ao vento para levar
minhas tristezas até você. Eu te quero sorrindo, Bruna. Eu te quis mal, mas te
quero sempre bem.
Até o
próximo fim. (Cinzentos)
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